Macapá (AP)

Não vou dourar a pílula: Macapá é longe pra caralho. Mas, de avião, não é nada que alguém que já enfrentou horas de congestionamento para a praia, como qualquer paulistano, não encare. Então essa questão de distância e tempo para chegar lá fica relativa.  E, como cidade, tirando a parte mais central e da orla do Rio Amazonas, parece um favelão de tão simples. Mas, acredite ou não, ao contrário de outras capitais-longe-pra-caralho tipo Boa Vista ou Porto Velho, essa tem coisa interessante pra ver. “Então por que ninguém visita?” pergunta você. Apenas um chute meu, mas acho que é por causa do bom e velho custo-benefício. Com o mesmo valor de uma passagem para essa cidade que não é das mais bonitas você consegue pegar uma boa promoção pra Buenos Aires, por exemplo. Ou algum lugar mais mais famoso e badalado, tipo Porto de Galinhas, sai por metade do preço. Aí realmente fica difícil defender Macapá. Mas com certeza você não sabe o que está perdendo, e vai descobrir agora.

Antes de mais nada, vamos começar com aquela informação que só você vai ter na mesa do bar: Macapá vem do tupi e quer dizer “lugar de muitas bacabas” (não confundir com babacas, que isso tem no Brasil inteiro). Bacaba é a palmeira nativa da região, vulgo Bacabeira.

bacabeira

Agora, uma dica de brother para você que, depois de ler tudo o que vem abaixo, resolve ir conhecer Macapá: vai em julho. É um barato você sair no inverno e encontrar uma cidade onde as pessoas comemoram a chegada do verão, com festas e eventos especiais. Ou você não gostaria de comemorar a chegada do verão duas vezes no mesmo ano? Ou, se não conseguir, tenta março ou setembro, quando temos o equinócio. Mais abaixo você vai entender os dois motivos.

A desvantagem de Macapá é ser a única capital brasileira que não dá pra você chegar por estrada, o que só dificulta. Mas, em compensação, é a única capital brasileira cortada pelo Equador. E essa, claro, é a primeira atração turística. Da orla do Amazonas, onde ficam os melhores hotéis e provavelmente onde você vai se hospedar (os mais simples ficam a 5 minutos à pé da orla, no centro, caso você esteja se perguntando), uma mototáxi e em cinco minutos você está no Marco Zero do Equador. Óbvio que você vai tirar a foto clássica com um pé em cada hemisfério. E no dia do equinócio (motivo 1) os raios do sol incidem diretamente na linha do Equador marcada no chão (e o sol passa bem no buraco do monumento.

Marco Zero 1  Marco Zero 3Marco Zero 2

E, ali pertinho, você caminha até o Zerão, estádio de futebol recém-reformado em que a linha do meio de campo coincide com a linha imaginária do Equador. Além da curiosidade, como não presenciar uma (ironia mode on) sensacional (ironia mode off) partida da 4a divisão do campeonato brasileiro? E eu sei que é recém-reformado porque quando eu fui, adivinha?, tava reformando e eu não consegui ver partida nenhuma. Mas tá na lista de coisas que eu tenho que fazer ainda.

Zerão 1 Zerão 2

Mas a imagem mais conhecida de Macapá, aquela pela qual a cidade é conhecida (tipo o MASP de São Paulo, o Cristo no Rio) é a Fortaleza São José de Macapá. Enorme e extremamente sólida (como convém a uma fortaleza), foi construída para proteger a entrada do Rio Amazonas. Hoje é um museu bem bacana, que mantém vivo o que era a construção quando foi erguida, mais de 230 anos atrás.

Fortaleza São José 1 Fortaleza São José 2

(E a imagem mais famosa é essa, com o Trapiche sobre o Rio Amazonas ao fundo)

Fortaleza e Trapiche

Falando em Trapiche, ele é o principal ponto de encontro da galera. Você, que tá de férias ou simplesmente à toa, experimente a delícia de ficar ali sentado fazendo nada, tomando cerveja e beliscando um camarão no bafo ou uma carne de sol. Conforme o dia vai chegando ao fim, os quiosques/bares vão se enchendo de gente, e de fim de semana rola música ao vivo em alguns deles.

Vista da Orla Orla_macapá_noite

Em frente à orla fica a imagem de São José, padroeiro da cidade. Atualmente apoiada em um bloco de concreto especialmente construído para tal, antigamente ficava em uma pedra conhecida como Pedra do Guindaste. A tal pedra tinha até uma lenda contada pelos moradores da região, mas foi destruída quando um barco bateu (imagina como não ficou o barco) e foi substituída pelo bloco que conserva o nome até hoje. Impressionante é a cheia e a vazante do Amazonas: a água ora bate no muro de proteção (esq.), ora não está nem perto da imagem de São José, onde você pode chegar caminhando (dir).

Pedra do Guindaste Pedra Guindaste vazante

Mais: conheça a Lenda da Pedra do Guindaste

Ah, claro, você obviamente vai andar pelo Trapiche Eliezer Levy avança 300 metros sobre o rio e lá na ponta tem um bar, que não estava aberto quando eu fui. E quando abriu, não estava lá muito movimentado, nem gastei meu tempo lá. Aproveite para tomar um sorvete que está cheia de sabores-deliciosos-do-norte. Para os preguiçosos tem tipo um bondinho elétrico que te leva até a ponta, mas não estava funcionando quando estive por lá.

vista Trapiche Trapiche

Ainda na cidade, mais dois pontos (ambos no centro, a 5 minutos de caminhada da orla): o Museu Histórico do Amapá, também chamado Museu Joaquim Caetano que fica num casarão de época de 1895, e o Teatro das Bacabeiras, que apresenta muita coisa regional. Pena que o espetáculo que vi lá era chato pra caralho (quem disse que tudo que é regional é bom?) e eu fiquei nem meia hora.

Museu Joaquim Caetano Teatro Bacabeiras

Agora, as duas coisas mais legais de Macapá, pra variar, não estão exatamente em Macapá.

A primeira é a comunidade quilombola de Curiaú. Formada por escravos que foram trazidos para construir a Fortaleza de São José (imagina! era 1760!) cultiva até hoje os costumes de seus antepassados africanos, principalmente os rituais cheios de música.

É lá que acontecem duas manifestações culturais famosas da capital: o Marabaixo, dança a canto que começa na Semana Santa e continua por mais dois meses (que infelizmente não vi), e o Batuque, uma homenagem, obviamente também de dança e música, aos santos de devoção daquelas comunidades.  Você não tem noção de como é enriquecedor conversar com o pessoal, ouvir as histórias, o orgulho dos antepassados africanos e a manutenção dessas raízes. Fora que é um estilo de vida completamente diferente do nosso (ao menos do meu). Na verdade são dois ajuntamentos que formam a comunidade: o Curiaú de Dentro e o Curiaú de Fora. Fica pertinho de Macapá, uns 8 quilômetros, qualquer taxista te leva lá por um valor bem negociado. Aproveite para mergulhar nas águas do balneário (que fica cheio aos finais de semana).

Curiau balneário Curiau batuque curiau 2

Mas a mais diferente e inesperada aventura que você pode ter no Amapá (não fui até Oiapoque, é um passeio a ser feito) é ir atrás da pororoca.

ATUALIZAÇÃO (dez/2015): daqui pra baixo é um texto in memoriam. Por conta dos rebanhos nas margens criados de forma irregular e irresponsável, o rio assoreou e a pororoca não existe mais.

A pororoca, que em língua indígena quer dizer “estrondo”, é um fenômeno de maré que acontece toda lua cheia e lua nova, com maior potência nos períodos do equinócio (motivo 2). Ela acontece na foz do rio Araguari, afluente direto do rio Amazonas, e essa é a maior, mais famosa e duradoura pororoca do mundo (tá no Guinness). Para chegar lá para ver, entretanto, você vai ter que ralar um bocado.

Primeiro, você tem que ir até Cutias do Araguari, que fica a uns 120 km de Macapá. De ônibus, por uma estrada estadual bem ruinzinha, você leva 2 horas e meia (com o clássico pinga-pinga nas cidades do caminho).

Cutia_araguari02  Cutia_araguari04

De Cutias do Araguari você tem que pegar um barco até a foz do rio. E tome-lhe mais 5 horas de viagem até a foz do Rio Araguari. Lá, tem uma pousada simples de tudo para você se hospedar por no mínimo uma noite: já que a pororoca acontece de 12 em 12 horas, você vai ter que ficar um tempo lá para poder ver a onda. Mas, quer saber? Toda a epopeia compensa: é lindo e assustador e impressionante ver a massa de água gigante e marrom subindo o rio. E sim, sempre tem uns doidos para surfá-la.

Pororoca  pororoca07

Mas é bom que valha a pena mesmo, já que o caminho de volta é rio acima leva longas 8 horas, e depois mais duas horas e meia de ônibus até Macapá. No fim das contas, são dois dias de viagem e andação mal dormidas, mas você vai poder bater no peito dizendo que viu a pororoca.

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