Monte Roraima (VEN)

Subir o Monte Roraima é daquelas coisas que todo mundo deveria fazer antes de morrer. Melhor dizendo: apreciar a vista de cima do Monte Roraima é daquelas coisas que todo mundo deveria fazer antes de morrer (mesmo porque subir o Monte Roraima pode fazer você morrer). Ou seja, o mundo ideal é você ter dinheiro suficiente para pegar um helicóptero, ir até o topo do Monte, dar um visu, falar “puta merda que coisa bacana!” e ir embora no mesmo helicóptero. Nada que 10 ou 15 mil dólares não façam. Agora, se você é pobre como eu, ou curte o papo de “superação” e tal e coisa, não tem jeito: vai ter que caminhar para chegar. Mas vale a pena, posso garantir.

Veja também o que fazer em Boa Vista – RR

ALERTA: esse texto tem descrição do passeio em si, tipo SPOILER. Se você acha que é mais legal não saber tudo para se surpreender com a experiência (como eu acho), fique apenas com as informações básicas:

Quando ir, quanto custa, como fechar o pacote, onde ficar em Santa Elena e o que levar?

Como chegar até Santa Elena?

Leia a crônica completa da aventura

Continua por aqui? Muito bem, vamos à caminhada.

Os pacotes oferecidos têm 6, 7, 8 ou até 10 dias de duração, e diferem apenas nos dias em que você passa no topo. Via de regra são 3 dias para subir (dá para fazer em dois, mas é sacrificado PRA CARALHO) e 2 para descer. No pacote de 6 dias, portanto, você fica um dia no topo, no pacote de 7 dias fica 2, e assim por diante.

Eu fiz o passeio de 6 dias e fiquei um dia só no topo (um e meio na verdade, já que no terceiro dia de subida você chega lá em cima no meio do dia, mas isso está detalhado mais embaixo) e achei mais do que suficiente. Tem gente que quer explorar o Monte de cabo a rabo, surte ficar sem banho mais dias e fica lá em cima mais tempo. Aí vai ser escolha sua.

Outra coisa: há o período seco e o período chuvoso. Os dois têm vantagens e desvantagens. Veja o que te encanta mais nas Informações gerais. Eu fui no período seco (e nada me fará ir no chuvoso).

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DIA 1

No primeiro dia você sai da pousada (veja aqui onde ficar) por volta das 8 da manhã. Há uma parada para trocar dinheiro (caso você ainda não tenha feito câmbio no dia anterior é Importante ter uns bolívares na mão pois há uma taxa a pagar na entrada do parque) e para  comprar água/gatorade e biscoito/chocolate, caem bem na caminhada.

Duas horas de estrada depois (uma em asfalto e mais uma sacolejando em terra) chega a Parateipui, o começo da caminhada. Paga a taxa ($ 200 bolívares, ou menos de R$ 2), dá o passaporte para o soldado registrar sua entrada e pronto, começa a trilha (a entrada é  permitida até 13h, para dar tempo, com folga, de chegar ao primeiro acampamento antes de escurecer). Esse é o último ponto onde há luz elétrica.

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Tirando uma subida matadora logo na primeira hora de caminhada, o resto do percurso é tranquilo. O melhor de tudo é que você pode fazer no seu ritmo, sem precisar necessariamente acompanhar o grupo ou o guia, já que não tem como errar o caminho. Se você for mais lento, como eu fui, só vai chegar um pouco depois ao acampamento, mas chega. São uns 12km, que você percorre em umas 4 horas, contando com as paradas para água e descanso. E vai apreciando o Monte Roraima e o Monte Kukenan ao fundo (dir).

DICA 1: Não esqueça o protetor solar e reaplique ao menos mais uma vez durante a caminhada. Calça leve tipo tactel e camiseta de manga comprida tipo ciclista protegem do sol e não esquentam. E, claro, boné e óculos escuro não podem faltar.

IMG_2498  Trilha ao Monte Roraima

Dependendo da empresa que você comprou o passeio, você pode parar no primeiro acampamento Tek, ao lado do Rio Tek, ou vai caminhar uns 4km mais, atravessando o Rio Tek e o Rio  Kukenan, e parar no acampamento Kukenan.

Eu parei no acampamento Tek e ao chegar, umas 16h, as barracas estavam montadas nos esperando. Nos fim de tarde os insetos (chamados de puri-puri) atacam vorazmente. Eu fiz a besteira de esperar até depois das 17h para tomar banho no rio e fui inteiro comido no curto período em que saí da água, me enxuguei e me troquei.

DICA 2: tome banho no rio antes das 17h se possível e não esqueça em hipótese nenhuma o repelente.

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Aí você tem um almoço-janta reforçado e fica enrolando até o sono chegar para ir dormir.

Noite no Monte

DICA 3: leve uma lanterna para andar pelo acampamento. A falta de luz elétrica é compensada, com folga, pelo céu estrelado.

Em tempo: o banheiro é uma atração à parte. Dependendo da empresa que você fechar o pacote, eles oferecem uma tenda-banheiro, com um suporte estilo privada onde você faz o que tem que fazer num saco de lixo. Como não se pode deixar nenhum lixo para trás, tudo tem que ser trazido de volta, inclusive as fezes, ao terminar de se aliviar você tem que jogar um pó sanitário no saco, fechá-lo e deixar para os carregadores levarem. E você achando que o seu trabalho era ruim, né?

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DIA 2

No segundo dia o percurso tem mais ou menos a mesma distância do primeiro, uns 12 km, mas é, em grande parte, subida. Mas vale o mesmo raciocínio do primeiro dia: vi no seu ritmo, não precisa acompanhar o grupo que não tem como errar.

Logo de saída você passa por uma igrejinha construída em mil-oitocentos-e-qualquer-coisa para catequizar e “civilizar” os índios da região. Claro que deu merda, houve conflito e muitas mortes, mas isso é história para o guia contar para quem for lá (ou eu conto na mesa do bar). Depois tem que atravessar o Rio Kukenan, maior e mais trabalhoso do que o Rio Tek. Curiosidade: a travessia é feita só de meia, tirando o tênis. Sim, fica muito mais aderente e fácil, vai entender por quê.

Ermida Sta Maria Monte Roraima  Rio Kukenan

Depois do rio vem o acampamento Kukenan (onde ficam aqueles que no primeiro dia não pararam no acampamento do Rio Tek) e dali pra frente é uma reta só, subida quase constante, com o Roraima cada vez mais perto. Até nosso guia, acostumado com a porra toda, nesse dia quase passou mal e teve que dar uma parada pra se recuperar. Ou seja, se você achar puxado, não precisa ter vergonha.

Trilha dia 2 Monte Roraima 4 Trilha dia 2 Monte Roraima 3

Trilha dia 2 Monte Roraima 1 Trilha dia 2 Monte Roraima 2

E eis que, depois de uma subida especialmente puxada no fim (sério, a coisa piora bastante pouco ante de chegar), você atinge o Acampamento Base Tepuy, no pé do Monte Roraima. Leva de 4 a 5 horas pra chegar, dependendo do seu ritmo. (Tem maluco que faz a subida em dois dias. Nesse caso, eles nem param no acampamento, vão direto ao topo. Como a subida é FODA – em maiúsculas mesmo – eu não recomendo. Mas tem gente que faz feliz o sacrifício).

Acampamento Base Tepuy PAredão Monte Roraima 2

Nessa parte do paredão você avista algumas formas nas rochas (o Maverick, porque parece um carro, à esquerda) e alguns desenhos na pedra, tipo ver Jesus na parede (um soldado fazendo mira com um rifle, à direita). Tem um King Kong também, mas não achei foto.

maverick  soldado

Dizem, inclusive, que na época de chuvas esse paredão exibe nada mais nada menos do que 21 cachoeiras. Só sei que os puri-puri atacam com ainda mais fome e o curso d’água onde se toma banho é frio PARACARALEO. Mas a vista, ah, a vista!, e o pôr do sol, valem a pena.

Monte Kukenan Por do Sol Acampamento Tepuy

Durma com a ansiedade de que você está a 4km do topo do Monte e que no dia seguinte estará lá em cima.

DIA 3

Esse dia parece tranquilo, mas não se engane. São só 4 km que você percorre rente ao paredão do Monte, mas leva umas 5h para isso, ou seja, aqui é que o bicho pega, inclusive com trechos  em que é necessário escalar usando as duas mãos.

subida Roraima

No final, como se não bastasse a canseira do caminho todo, vem o Passo das Lágrimas, um lugar onde a água brota constantemente, mesmo no período seco, e a atenção deve ser dobrada, triplicada. E, claro, a parte mais íngreme da subida.

Passo das Lágrimas 2  Passo das Lágrimas

Mas a recompensa faz valer todo o esforço: por volta da uma da tarde você está no topo do Monte Roraima (especialmente nublado quando cheguei).

Subida

Atingido o topo, tome mais caminhada. Cada excursão tem o seu “hotel” específico. Hotel são as formações rochosas, cavernas e grutas, mais protegidos da chuva, vento e intempéries, em que os acampamentos são montados. A gente teve que andar mais uma hora, mas chegou e o almoço servido foi uma das melhores coisas que já comi (fome tava braba).

Hotel Monte Roraima Hotel Monte Roraima 2

A tarde do terceiro dia é livre para andar pelo Monte. Vai depender de onde a galera tá acampada e do feeling do seu guia pra saber se vai chover, vai baixar cerração, se dá pra ir longe ou não. Nós subimos o Maverick (o carro, lembra?), o ponto mais alto do Monte.

Maverick 1 Maverick 2

Maverick 3 Maverick 4

Dia 4

O quarto dia é o único dia inteiro que passei em cima do Monte. Tem gente que fecha pacotes com 7, 8 dias que ficam, respectivamente 2 e 3 dias no topo. Além de ser mais caro, obviamente, demora mais para você dormir num colchão e tomar um banho de água quente. Um dia deu para fazer os principais locais e ficamos sem ver apenas dois pontos turísticos: o marco da tríplice fronteira (um marco de concreto, que leva quase o dia todo de caminhada para chegar nele) e não fomos na borda que dá vista para o Brasil (que leva também o dia inteiro de caminhada e você vê nada muito diferente do que vê nas outras duas bordas, que dão pra Venezuela e pra Guiana).

A paisagem é meio lunar, poucas árvores aqui e acolá – resquícios de quando o Monte se ergueu, dizem – e muito mais de vegetação rasteira.  Nada do que você já tenha visto antes.

topo do Monte 1 topo do Monte 2

topo do Monte 3 topo do Monte 4

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topo do Monte 6 topo do Monte 5

Com mini-plantas carnívoras e anfíbios diminutos.

  Flor Monte Roraima   Sapinho

Tem o Palácio dos Cristais, onde era cheio de cristais e quase tudo foi levado embora (hoje em dia é crime pesadíssimo, com multa e prisão, levar QUALQUER COISA do Monte). Sim, eu sei, o nome “palácio” evoca a muito mais coisa. Mas cristal sempre é foda, né?

Palácio dos Cristais 1 DSC05079  Palácio dos Cristais 3

Tem uma queda d’água que eu não lembro o nome e só um fiapo de água pois era época seca e tem as jacuzzis, onde rola tomar um banho.

que d' água  Jacuzzi

Falando em época seca, tem esse cânion (bem fundo, por sinal) que na época de chuvas fica completamente tomado d’água. Ele é o responsável por alimentar as 21 cascatas que eu comentei acima.

Cânion 1  Cânion 2

Tem uma porrada de pedras com formas, tipo Fidel Castro  e um índio. (tem um falo enorme também, mas em respeito aos dois leitores desse site, não vou publicar. Tem que ir lá pra ver).

Fidel Castro  índio

E tem as partes mais sensacionais do passeio: La Ventana, com vista para a Venezuela (fotos de cima) e a vista para a Guiana (fotos de baixo). Um negócio totalmente “in”: inexplicável, indescritível, inenarrável.

Ventana 1   Ventana 2

Vista da guiana 2 Vista da guiana 1

Só tem que ficar esperto de correr pra aproveitar os momentos com melhor vista, pois a cerração desce de uma hora pra outra.

cerração 1 cerração 2

dias 5 e 6

O quinto dia para mim foi, de longe, o pior de todos. Porque acorda-se 5 da manhã pra iniciar a descida e eu quase morri para chegar, por volta do meio dia, até o acampamento base Tepuy, onde dormimos na noite do segundo dia. Paramos, deu uma descansada e toca descer os outros 12 km até  o acampamento do Rio Tek. Ou seja, a caminhada feita nos dias 2 e 3, foi condensada no quinto dia. De matar. “Ah, mas é descida, é mais tranquilo” dirá você. E eu respondo “Ok, vai nessa.”

A gente chegou no Acampamento do Rio Tek lá pelas 4 da tarde. Sabe a grana que você trocou para pagar a taxa de entrada no parque? Bom, pegue o que sobrou e compre uma cerveja. Sim, estará em temperatura ambiente, já que lá não tem energia. Sim, será uma “Regional Light” que te custará uns 500 bolívares. Mas ainda assim vai ser boa. E você merece, creia-me.

Cerveja Regional  IMG_1489

No sexto dia é a mesmíssima caminhada do primeiro dia, com a vantagem de você já estar calejado nessa aventura, então é supertranquila. Só resta dar adeus ao Monte e agradecer pela hospitalidade (e comemorar o fato de dormir num colchão e tomar banho num chuveiro quente).

Mais: leia a crônica da aventura aqui

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