Parintins (AM)

Prepare-se: você nunca viu nada igual. Parece de propaganda ruim de empreendimento imobiliário, eu sei,  mas desta vez posso garantir que não estou exagerando e nem enganando. A menos, claro, que você já tenha visto carros alegóricos de trocentos metros de altura, comparáveis aos do carnaval no Rio de Janeiro, dezenas de pessoas envergando fantasias elaboradíssimas mesmo com um calor de uns 30 graus à noite,  numa ilha no meio do rio Amazonas, a umas 20 horas de barco de Manaus. Aí, nesse caso, o título não se aplica a você. Mas se você ainda não teve a felicidade de conhecer Parintins no último final de semana do mês de junho, que é quando acontece o Festival Folclórico (também conhecido como Festival dos Bois), acredite em mim: você nunca viu nada igual.

Começa com a ida até lá. Tem o jeito mais fácil, que é quando você pega um voo até Manaus (umas 4 horas saindo de São Paulo ou Rio) e, de lá, um outro voo para Parintins (mais uma hora de viagem).

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E tem o jeito mais divertido, que é aquele em que, depois de chegar em Manaus, você vai até o porto e arruma passagem em um dos inúmeros barcos que descem o Amazonas rumo ao Festival, cuja viagem demora umas 20 horas. Depende do quanto você faz questão de conforto e o quanto está disposto de passar por alguns perrengues em nome de uma experiência mais, digamos, autêntica. Além, claro, do quando está disposto a gastar.

Porto_flutuante

Porto flutuante. Tá todo mundo indo pra Parintins.

Seguindo o conselho dos manauaras, procure um barco que seja grande (vai mais gente e a viagem é mais animada) e que seja de metal, não de madeira, é muito mais seguro. Aí você vai ter as opções de pegar um camarote ou armar a sua rede (que você compra ali do lado no mercado municipal por uns R$50) em um dos decks.  De novo, vai depender do quanto de perrengue você está disposto a passar e o quanto pretende desembolsar. O camarote, onde você tem privacidade, dorme em beliches e pode deixar suas malas sem qualquer preocupação, sai por uns R$2000 (e provavelmente já está esgotado). Pra armar a rede, você paga uns R$ 150. Conselho? Vai de rede. Sim, você terá que ter uma atenção redobrada com as suas coisas (sempre há o risco de furto de dinheiro, câmera, celular, etc.) e pode ser meio apertado e desconfortável para dormir, principalmente se você não estiver habituado a uma rede. Mas em compensação você conhece todo mundo à sua volta, o que definitivamente não é pouca coisa, e já coleciona uma porção de histórias interessantes durante a viagem.

Singrando o rio, um mar de redes

Singrando o rio, um mar de redes

Fora que na ida o clima é de festa, há música na parte superior e o pessoal bebe o tempo inteiro. Casais se formam com muita facilidade e, durante a madrugada não é incomum você presenciar casais mais fogosos dividindo uma rede, apesar dos avisos nas paredes.

E eles fazem várias coisas, menos dormir.

E eles fazem várias coisas, menos dormir.

Em Parintins, você se impressiona com: a) a simplicidade do lugar;  b)  a inversa grandiosidade do Bumbódromo e das apresentações e fantasias e; c) o fato da cidade ser realmente dividida em duas cores. Inclusive com marcas tradicionalmente vermelhas mudando seus logos pra azul (Coca-Cola, Kaiser, Bradesco, SKY).

Em um bar em frente ao Bumbódromo.

Em um bar em frente ao Bumbódromo.

Não se preocupe em agora tentar lembrar quem é Caprichoso, quem é Garantido, quem é azul e quem é vermelho, qual o boi preto e qual o boi branco. Você vai se confundir. Isso é coisa que você só absorve realmente estando lá.

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O que você precisa é: achar onde ficar e conseguir ingressos para as três noites (ou ao menos uma das três). Não há obviamente grandes hotéis, e as melhores pousadas certamente estarão caras e lotadas. Mas não se preocupe, no próprio porto não vão faltar pessoas oferecendo as mais variadas opções de estadia.  Dependendo de quem você conhecer no barco, e do seu ímpeto aventureiro, você pode ser convidado a dormir na casa de algum dos moradores. Não são poucos os que vivem em Manaus mas têm parentes na ilha, e voltam todo ano para acompanhar a festa. Quanto aos ingressos, a coisa é um pouco mais complicada. Ao menos que você tenha uma bela grana para gastar (não faltam cambistas oferecendo ingressos na frente do bumbódromo), você vai ter que suar um pouco a camisa (figurativamente falando, pois no calor amazônico você estará com toda a certeza suando a camisa) para conseguir comprar entradas com a única empresa oficial, a Tucunaré Turismo. Há a arquibancada gratuita, mas para essa opção formam-se filas desde o o início da tarde na frente da arena esperando a abertura dos portões, que só abrem por volta das 7 da noite.

Bumbódromo. A casa dos bois.

Bumbódromo. A casa dos bois.

Mais: conheça as regras de etiqueta do Bumbódromo

E não é por estar na Amazônia que você vai querer encarar um programa de índio desses: ficar seis horas na fila debaixo do sol amazônico. Mas, assim como no caso da estadia, conversando aqui e acolá, procurando, fazendo amizade, todos são extremamente simpáticos e receptivos, você consegue sua entrada. E amigo, pode ter certeza: vale cada centavo.

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Cada noite apresentam-se os dois bois, mas com músicas, carros alegóricos e fantasias exclusivos para cada apresentação. É um espetáculo visual de emocionar.

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A energia e vibração da torcida também é algo que não há como ficar alheio.

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Durante o dia, aproveite para dar uma volta pela cidade (tarefa que obviamente é cumprida rapidamente) e não deixe de experimentar os peixes da região. O tambaqui, em especialmente a sua costela, é o meu preferido.

À tarde, o movimento de pessoas, o agito e a festa se concentra na beira do rio, onde é montado um palco para shows e diversos bares, bem simples, abastecem o povaréu de cerveja.

Gente bonita e clima de paquera

Gente bonita e clima de paquera

Há a Catedral Nossa Senhora do Carmo, mas nessa época de festa não consegui visitá-la. Ali, à noite é em frente a ela que fica o “agito”. Mas eu sinceramente desaconselho: não tem nada de divertido e batedores de carteira agem no meio da bagunça.

catedral

Na volta, evite o barco. Como a volta é subida do rio Amazonas, contra a corrente, a viagem leva ainda mais tempo, cerca de 30 horas.  E sem toda a festa e animação e expectativa que marcava o ambiente do barco na ida. Ou seja, para ir embora prefira o avião até Manaus. Vai ser o final perfeito para uma viagem que, com certeza, você nunca viu igual.

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