Rio Branco (AC)

Sim, o Acre existe. E você não sabe o que está perdendo. Rio Branco só tem um único problema: é longe pra cacete. Isso significa que a viagem é longa e cara, e você obrigatoriamente tem que encarar uma escala em Brasília.  Convenhamos que um voo de 5 horas, e que custa uns mil reais ida e volta não ajuda a atrair a visita de muita gente, né? Se ainda tivesse algo fora do comum, como um mar de Fernando de Noronha ou umas dunas tipo Lençóis Maranhenses, até que vá lá. Mas não. Ou seja, a ideia de viajar para capital do Acre não faz o olho de ninguém brilhar. Mas se você estiver por perto, de bobeira, ou for passar por ali para ir para Macchu Picchu, por exemplo, dê uma parada e aprecie as surpresas de Rio Branco.

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Para começar, tem o povo. As pessoas de lá são um capítulo à parte, estão sempre com um sorriso estilo propaganda do Mc Donalds, você quase consegue ouvi-los dizer “Que bom que você veio”. Eles têm um orgulho fantástico de terem nascido ou pertencer àquele lugar (a bandeira do Acre, aliás, está por toda parte). Conta muito para esse sentimento a história de formação do estado, que é fantástica (e resulta em uns dos melhores lugares para se visitar na cidade), cheia de lutas e revoluções armadas. E, de lambuja, tem o Santo Daime, que nasceu ali.

A visita a Rio Branco começa na beira do rio que corta a cidade. Esse rio, adivinha?, não chama Rio Branco, chama Rio Acre. (o nome da capital veio do Barão de Rio Branco, diplomata brasileiro que resolveu de uma vez por todas as pendengas das fronteiras do Brasil com os países vizinhos, inclusive as do Acre).

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Ainda hoje existe a gameleira, árvore que deu origem ao seringal, que virou povoado, que virou a cidade.

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Três pontes, sendo uma a Passarela Joaquim Macedo (à dir., um dos cartões postais da cidade), fazem a ligação entre os dois lados. Tem o lado da gameleira, também chamado de segundo distrito, que é o lado, digamos, mais simples. Fiquei em um hotel mais “cara do povo” ali, o Hotel Gameleira – bem honesto por sinal – e era uns 30% mais barato do que os mais famosos do outro lado, o primeiro distrito.

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No lado do segundo distrito, o lado da gameleira, fica o chamado Calçadão da Gameleira, que conta com um monumento à bandeira acreana (que também dizem ser um monumento à Revolução Acreana). Foi feita ali uma revitalização, mas que ainda não “pegou”.

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Do outro lado do rio, no primeiro distrito, é que estão os bares com mesas na calçadas, onde todo mundo senta para tomar uma cerveja e apreciar a vista.

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Os bares inclusive ficam ao lado do Mercado Velho Novo, que tem esse nome assim mesmo, porque era o Mercado Velho, mas foi restaurado e virou o Mercado Velho Novo. Além de todo tipo de comida e fruta do norte, você também encontra artesanato das tribos locais, que não são poucas.

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Em frente ao Mercado Velho Novo, as estátuas que representam os tipos acreanos (o Carlos Drummond de Andrade sentado no banco deles).

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Subindo a partir do Mercado Velho Novo, você chega na Praça Povos da Floresta. Além da estátua de Chico Mendes, tem  o centro de informações turísticas. Bem preparados, sabem prestar informações sobre tudo o que há para se fazer e o transporte para chegar até cada um dos atrativos (o que deveria ser o óbvio, mas como não e sempre o que acontece pelo Brasil, vale a menção quando o troço é bem feito).

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Do lado do CAT há o Palácio Rio Branco, sede do governo. Inaugurado na década de 1930, foi restaurado e tem um museu bem legal, completo e interativo que conta a história do Acre e sua diversificada formação cultural e humana. Surpreendente aprender sobre os geoglífos, formas geométricas milenares no Vale do Acre, que eu nunca tinha ouvido falar. O obelisco em frente ao Palácio é em homenagem aos heróis da Revolução acreana.

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Do outro lado da rua, rolava um forrozão animadíssimo, com dezenas de idosos se acabando na dança. Ao me informar, soube que sim, toda sexta antes do meio dia, o forró come solto ali.

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A história do Acre, versão super-mega-resumida, é mais ou menos assim: o Acre era um selvão só, ninguém queria muito saber dele, até que inventaram o carro e descobriram a seringueira e perceberam que a seiva era ótima para fazer borracha para fazer pneu para carro. Aí Belém e Manaus bombaram e uma galera, vinda na sua maioria do nordeste, continuou entrando floresta adentro para achar um pedaço de terra cheio de seringueira para chamar de seu e toparam com o Acre. Só que o Acre era oficialmente terreno da Bolívia, que também nunca tinha dado muita importância a ele até então. E aí deu-se o embate “o Acre é meu” dizia a Bolívia, “Mas nós ocupamos, então agora é nosso” diziam os brasileiros. Aí que aconteceu a Revolução Acreana, com Plácido de Castro (aí você descobre de onde vem o nome do aeroporto) liderando os brasileiros, que ganharam a guerra. Aí o Brasil ainda pagou uns milhares de dólares e pronto, o Acre era nosso! A Praça da Revolução Plácido de Castro tem a estátua do cara e um monumento em homenagem aos heróis da revolução (sim, mais um. São três pela cidade).

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Continuando a história: eis que, fazendo parte do Brasil, o Acre era um território governado diretamente pelo governo central, não tinha um governador do estado, nada. Então tome-lhe luta e briga e discussão e manobra para elevar à condição de estado autônomo. Um dos grandes defensores dessa causa foi o senador José Guiomard dos Santos, cujos restos mortais, e os da esposa, estão no Memorial dos Autonomistas. Vários documentos históricos, fotos e esculturas homenageiam aqueles que lutaram pela autonomia.

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Cortando o centro da cidade está o Parque da Maternidade. São 6km de extensão, ou seja, evite fazer o que eu fiz e querer andá-lo todo à pé, atrás dos vários atrativos. Debaixo do calor de Rio Branco, não é uma ideia lá muito salutar.

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Vá direto à Casa dos Povos da Floresta, interessantíssimo repositório de objetos da cultura indígena (como as armas feitas com bicos de tucano abaixo) e de lendas acreanas (abaixo, o mapinguary). Menores aprendizes fazem uma visita guiada que começa com informações decoradas, mas que se você transformar em bate papo, o pessoal se solta e fica muito mais bacana.

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Mais: quer saber tudo sobre as lendas acreanas? Clica aqui. (em breve)

No Parque da Maternidade também tem a casa do artesão, com artesanato local e tal e coisa. Mas, cá entre nós, é meio carinha e o atendimento não é nada simpático (ou peguei a mulher num dia ruim). Para artesanato, prefira a Praça dos Seringueiros, que tem opções mais baratas e boa variedade. E tem também uma feira de pratos típicos, o que só agrega valor.

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Ainda no Parque da Maternidade, dê uma passada na Biblioteca da Floresta, que leva o nome da nossa ex-ministra e quase-presidenta Marina Silva. Surpreendentemente moderno e interativa traz materiais, documentos e informações sobre Rio Branco, o Acre e a floresta amazônica.

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Do outro lado do rio, na parte menos glamourosa, tem o Parque Chico Mendes (um ônibus e você chega até lá). Tem 52 hectares (!) de área verde, tem de novo as lendas acreanas, um memorial dedicado a Chico Mendes e um zoológico com espécies da área (inclusive uma onça pintada e uma onça parda).

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Indo para o Parque Chico Mendes você passa em frente à Arena da Floresta, o estádio construído com padrão FIFA na esperança de que Rio Branco pudesse ser a “cidade-representante-da-selva-amazônica” na Copa (que, como sabemos, foi Manaus). Como resistir ao apelo de ver um jogo da quarta divisão do brasileiro, entre Atlético Acreano e Genus? (com os dois times sem chance de classificação, se eu contei 50 pessoas no estádio foi muito).

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Um passeio que você pode fazer e bater no peito depois, se vangloriando de ser o único dos seus amigos a ter feito, é a visita ao Ciclu (Centro de iIuminacão Luz Universal) Alto Santo, a comunidade onde surgiu o culto ao Santo Daime. Um ônibus até o ponto final e pronto, você está lá. As cerimônias acontecem só nos dias 15 e 30 de cada mês, e eu não tive a sorte de ver uma, mas há um memorial em homenagem ao Mestre Irineu Serra, o criador da doutrina. A única coisa ruim é que não é permitido pessoas usando bermudas, só calças compridas. Isso, no calor de Rio Branco, é uma merda.

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Caso você queira ver uma cerimônia religiosa do Santo Daime, o centro Barquinha  realiza a cerimônia às sextas e sábados, e que com um ônibus até a Vila Ivonete você também chega. No Centro de Informações Turísticas eles dão a dica. Eu fui assistir mas não tive coragem de tomar a beberragem.

O único senão dessa viagem foi o Museu da Borracha, que dizem ser imperdível, estava fechado para reforma. Infelizmente, perdi o imperdível.

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